Moda

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A influência da arte na moda

Introducão

Esta página relata, através de uma abordagem histórica, a influência entre a arte e a moda, com base na perceptível permuta de códigos conceituais entre as áreas, estabelecendo uma interface através dos desfiles conceituais, constatando a crescente diminuição de fronteiras entre as duas formas de manifestações culturais, visivelmente unidas pelo desejo da criação.

O diálogo entre as artes plásticas e a moda vem de longa data. Uma área penetra a outra, enriquecendo a ambas, tanto no repertório final, como no discursivo. São vários os artistas plásticos que criaram ou produziram (e produzem) para o universo da moda, da mesma forma que são muitos os estilistas que pautam suas criações em linguagens consagradas no campo das artes.

Relações entre arte contemporânea e moda conceitual

A arte funciona para a moda como um suporte que agrega valores imaginativos e criativos, e a moda se torna para a arte um veículo para aproximá-la do público.

Assim como na arte contemporânea, a moda, a partir das décadas de 80 e 90, passa a adquirir um caráter conceitual, e o que importa é transmitir um pensamento, uma sensação.

Na contemporaneidade, deve-se observar, de modo preciso e crítico, essa relação das linguagens artísticas com a moda, pois apesar da contaminação dos meios e da possibilidade de interação entre eles, os dois campos de produção estética são diferentes. É a funcionalidade em contraposição à pura contemplação.

Percebe-se tal relação nas apresentações da coleção de Junya Watanabe, inverno 2000 (Figura 1) e de Martin Margiela, verão 2008 (Figura 2), que, apesar da forma de evolução na passarela ter sido tradicional, é clara a inspiração nas performances de Rebecca Horn; sem esquecer o desfile de Hussein Chalayan, verão de 2009, que apresentou forte referência das obras de Floria Sigismundi, uma artista conhecida por suas instalações e vídeos musicais, inovadores e excêntricos (Figura 3).

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Apesar de serem segmentos distintos, são claramente perceptíveis as conexões possíveis entre arte e moda, assim como a relação entre as duas formas de linguagem, especialmente em se tratando de arte contemporânea e moda conceitual.

Na arte contemporânea, as linguagens se misturam, muitas vezes apropriando-se uma da outra, gerando obras de caráter híbridas. O mesmo ocorre com os estilistas chamados conceituais, que de diversas maneiras são influenciados pelas correntes artísticas

Os desfiles espetaculares

Algo que começou como um mostruário de loja e se transformou em espetáculos: assim são os desfiles hoje. Começando com a escolha dos locais para a apresentação das coleções que são os mais inusitados possíveis, até chegar aos formatos mais variados, tais como performances, danças, projeções holográficas, vídeos, passarelas virtuais, entre outros.

Lugares inusitados para apresentações dos desfiles, bem como passadas diferenciadas de modelos nas passarelas já se viam nos lançamentos das coleções de Paul Poiret, Elsa Schiaparelli, entre outros, como Pierre Balmain, que em 1948 promoveu um desfile na Torre Eiffel, em Paris, onde uma de suas modelos entrou em cima de um elefante cor de rosa (EVANS, 2002, p. 52).

Mas, foi na década de 60, com a arte contemporânea em plena efervescência através de seus movimentos inovadores, que se fez mais intensa a forte influência na moda, marcando um momento de virada na história dos desfiles. Mary Quant passa a utilizar som e luz nas suas produções, e André Courrèges inova seus desfiles com evoluções totalmente diferenciadas (Figura 4).

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Mary Quant e André Courrèges iniciam um novo formato nos desfiles de moda. Ao som de músicas do momento, as modelos agora representam e dançam, em produções montadas por coreógrafos e diretores de espetáculo, sem esquecer que Quant também inova com produções para seus looks, com algo próximo ao que chamamos hoje de styling (EVANS, 2002).

Estilistas considerados conceituais se aventuram pelo mundo da arte, promovendo desfiles que remetem aos happenings, como os holandeses Viktor & Rolf que na coleção de inverno 1999, intitulada Boneca Russa, em vez de levar diversas modelos para a passarela, uma com cada look, colocavam todas as peças em uma só. Eles mesmos vestiram as roupas, uma em cima da outra, num efeito reverso de uma Matrioska.

Em se tratando de desfiles conceituais performáticos, o estilista Alexander McQueen foi um exemplo emblemático. No verão de 1999, ele finalizou seu desfile com uma modelo vestida de branco, girando lentamente em um disco instalado no meio da passarela, enquanto era alvejada com tintas amarelo limão e preto, por duas grandes pistolas de pintura robotizadas, remetendo-se às performances conceituais de Yves Klein.

A arte contemporânea conta com a vantagem da sedução por possibilitar outras visualidades, percepções e reflexões ilimitadas. Nesse momento, o artista torna-se um possibilitador de ideias, com o conceito ou atitude da obra superando sua aparência e a reflexão passa a ser essencial e pessoal.

O caráter questionador da arte contemporânea aparece, também, nos desfiles conceituais. Martin Margiela, em seu desfile de inverno de 1998 (Figura 5), no qual haviam, no lugar das modelos, marionetes em tamanho natural, controladas por titereiros, promovendo um questionamento sobre quem no mundo da moda puxa os cordões que elevam o ego dos designers e das suas marcas (DUGGAN, 2002, p. 22).

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A estilista Karlla Girotto, com seus desfiles de verão (Neutro) e inverno de 2005 (Brecha), explora a espacialidade externa, apresentando suas coleções através de performances que acontecem nos jardins do MAM5, no Rio de Janeiro, levando a moda para outro campo de convergência com a arte contemporânea — o campo expandido — conceito apresentado por Rosalind Krauss, em 1979, referindo-se à relação da escultura com a paisagem e a arquitetura, estabelecendo um diálogo entre o sujeito, o objeto, o espaço real e o tempo, ou seja, a sua externalidade.

Com o mercado ávido por diferenciais, é grande a busca por novas soluções. Tudo isso faz com que os desfiles conceituais, espetaculares e nos formatos de show sejam vistos de forma cada vez mais inovadora e criativa, afinal, a moda conceitual é um exercício de criatividade que dá vazão a novas e inusitadas possibilidades.

Considerações finais

A simbiose que existe entre moda e arte é claramente visível ao longo da história, quando por vários momentos estiveram juntas, servindo de fonte de inspiração uma para outra.

Em especial, a partir dos anos 60, estilistas de vanguarda, assim como os artistas contemporâneos, recusam as convenções e fórmulas prontas para arriscarem-se conscientemente em um universo onde a funcionalidade e, em alguns momentos, a comercialização são recusadas em nome da experimentação e da ruptura com o comum. É o início da produção de desfiles de moda repletos de analogias com as produções artísticas contemporâneas.

Assim como na arte contemporânea, os desfiles conceituais têm seu foco na essência visual, com a maior parte das peças longe de serem vendáveis. A preocupação não é em mostrar imagens, mas em construí-las, sejam elas de provocação, questionamentos ou reflexão, levando os expectadores e consumidores a pensarem e refletirem através de maneiras variadas e inusitadas.

Os desfiles de moda conceituais seguiram o curso da história e acompanharam o rumo da sociedade contemporânea, transformando-se em uma ferramenta importante para a subversão dos valores e a concretização do estilista como artista. São moda e arte se entrelaçando, em total sinergia e nutrindo-se reciprocamente.